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As comunidades ciganas na Internet
Publicado em 23-06-2007
Tema: Notícias  


No âmbito das actividades deste Gabinete, o Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural lançou dia 25 de Junho, no Centro Nacional de Apoio ao Imigrante em Lisboa, o site “Ciga-nos!” – acessível através do endereço www.ciga-nos.pt – na presença do Alto Comissário para a Imigração e Diálogo Intercultural, líderes associativos das comunidades ciganas, representantes e técnicos de instituições que trabalham com estas comunidades.“Ciga-nos!” pretende divulgar a história e a cultura cigana, os projectos que estão a ser desenvolvidos no terreno junto destas comunidades, as boas práticas de escolas e outras instituições, a importância do associativismo, as notícias e os eventos mais relevantes, sendo dirigido a professores, investigadores, técnicos, estudantes e membros das comunidades ciganas.

Trata-se de um site de Internet que não visa apenas a comunidade cigana, destinando-se também à sociedade em geral, por forma a quebrar barreiras que são sobretudo devidas à ignorância e dar a conhecer esta comunidade sobre a qual sabemos muito pouco.Deste modo, o site pretende ser uma plataforma que sirva como instrumento de trabalho para aqueles que são mais activos nesta causa, ciganos ou não ciganos, permitindo ainda que as crianças ciganas, nomeadamente as que estão integradas em projectos do Programa Escolhas, encontram na Internet a sua história e as suas tradições.

Mais do que chegar a cada cigano, o objectivo é assim criar uma ferramenta de informação, que se dirija muito em particular às novas gerações de ciganos.Durante o encontro, participado por diversos dirigentes de associações ciganas, debateu-se o conceito do site, na sua generalidade. Para além disso, foi sublinhado que este não é um projecto concluído, mas que pelo contrário está a começar agora e necessita de melhorias e um constante influxo de informação. Durante o debate, foram apresentadas diversas sugestões que serão brevemente incorporadas no site.   









Crianças ciganas bricam em acampamento em Curitiba

Brasília ganha um colorido diferente nesta semana. Ciganos de diversas partes do Brasil chegam a capital federal para a Audiência Cigana, que acontece na próxima terça-feira (14) e fornecerá subsídios para a participação do grupo na 1ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. São ciganos dos grupos Roms e Kalon. É a primeira vez na história do país que o grupo é chamado oficialmente para apresentar suas principais reivindicações para a inclusão social.

Diferente dos demais grupos étnico-raciais, os ciganos enfrentam dificuldades de acesso às políticas públicas em função do nomadismo e da ausência de domicílio-referência. Entre as principais demandas da comunidade cigana estão: educação, saúde, geração de trabalho e renda, conhecimento sobre a cultura com produção de materiais multimídia e emissão de documentos.

A Audiência Cigana representa um momento histórico de articulação com o Governo Federal, capitaneado pela Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) da Presidência da República. Com presença da secretária especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, ministra Matilde Ribeiro, a mesa política reunirá representantes do Ministério da Saúde, Ministério da Cultura, Ministério da Educação, Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Justiça, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Ministério das Cidades, Ministério da Previdência Social, Ministério da Defesa, Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Secretaria Nacional de Segurança Pública e Governo do Distrito Federal.

"Esse é um momento histórico, porque em todo o planeta ninguém nos chamou para conversar. O Brasil está dando um exemplo para o mundo", afirma Cláudio Domingos Iovanovitchi, presidente da Apreci (Associação de Preservação da Cultura Cigana) e integrante do CNPIR (Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial). Segundo ele, a audiência é um marco para a discussão dos direitos e problemas vividos pelos ciganos no Brasil, formação de lideranças entre jovens de 18 a 25 anos e criação de representações estaduais da Apreci. Clique aqui e leia entrevista exclusiva de Cláudio Domingos Iovanovitchi concedida ao Destaque Seppir em abril.

Audiência Cigana
Data: 14 de junho
Horário: das 9h às 18h
Local: Saint Paul Park Hotel, SHS, Quadra 2, Bloco H, Brasília, DF            








Brasil terá diagnóstico sociocultural de população cigana
Juliana Andrade
Repórter da Agência Brasil Brasília



No Dia Nacional do Cigano, celebrado hoje (24) pela primeira vez no país, o secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti, anunciou que o Brasil terá o primeiro diagnóstico sociocultural sobre esses povos.

Segundo ele, o protocolo de cooperação do censo será firmado ainda em 2007 entre os ministérios da Cultura, Educação e Saúde e a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) da Presidência da República.

No evento comemorativo, Mamberti disse que o levantamento não será apenas quantitativo, mas incluirá aspectos relativos "aos saberes, fazeres e modos de vida dos povos ciganos”. Participaram da cerimônia, realizada no Ministério da Justiça, cerca de 80 representantes da etnia cigana.

De acordo com a secretaria e a Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci), cerca de 600 mil ciganos vivem hoje no país. A ministra Matilde Ribeiro, da Seppir, acrescenta que o mapeamento inicial sobre esses povos indica que a maioria é de baixa renda e necessita de políticas básicas do governo federal.

Para a ministra, um censo mais aprofundado será fundamental para a elaboração de políticas públicas para os ciganos. “Há um conjunto de demandas apresentadas por eles, como acesso a postos de saúde, escolas, alfabetização de adultos, alfabetização de crianças de uma maneira especial, considerando que nem todos têm moradia fixa, documentação. Esses são exemplos para inclusão na agenda da política pública como um todo”.

Na avaliação da representante do Centro de Estudos e Preservação da Cultura Cigana Yáskara Guelpa, os livros de história brasileira também deveriam passar por mudanças tanto para mostrar a importância dos ciganos para o país como para “acabar com mitos e lendas”.

"Somos um povo pacífico, não roubamos criancinhas, não fazemos mal a ninguém, só queremos ser reconhecidos como seres atuantes na história do povo brasileiro. Estivemos da Guerra dos Farrapos, na Guerra dos Emboabas, no Quilombo dos Palmares, mas os livros de história não contam isso, esse é o problema”.

No evento, Mamberti também anunciou a publicação, em 2007, do edital do primeiro prêmio Culturas Ciganas, no valor de R$ 200 milhões. Serão selecionados 20 projetos que se destacarem na valorização cultural desses povos.

A programação incluiu o lançamento de um selo e de um carimbo comemorativo, pelos Correios, e a entrega do relatório de atividades desenvolvidas pelo Grupo de Trabalho para as Culturas Ciganas, do Ministério da Cultura.

De acordo com o secretário, uma das ações foi a Oficina de Capacitação em Projetos Socioculturais para Comunidades Ciganas, realizada esta semana.     








Celebração Cigana
Dia Nacional do Cigano é comemorado pela primeira vez na história do Brasil


Na manhã desta quinta-feira, 24 de maio, o Salão Negro do Palácio da Justiça, em Brasília, foi palco de um evento atraente, bonito e bastante diferente. O colorido especial veio dos ciganos, personagens principais das comemorações preparadas pelo Governo Federal ao Dia Nacional do Cigano, celebrado pela primeira vez na história do Brasil. “Viva, viva la música... canta comigo, baila amigo...”, dizia a letra de uma música cantada na cerimônia.

Os ciganos cantaram, dançaram, tocaram instrumentos como violão, acordeon e violino, emocionando autoridades como a ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, o secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (SID/MinC), Sérgio Mamberti, outras autoridades e todos os participantes da solenidade. As roupas coloridas, as flores nos cabelos, as saias rodadas, as pulseiras, os brincos das mulheres, os lenços e as faixas na cintura dos homens, toda a indumentária e os enfeites, além da alegria e da emoção, fizeram parte daquele salão, na Esplanada dos Ministérios. O cigano Yago, de Poços de Caldas, com apenas 15 anos, encantou a todos com a sua bela voz.

O Dia Nacional do Cigano (24 de maio) entrou para o calendário dos eventos brasileiros graças ao decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de maio de 2006. Ao assinar o ato, o presidente reconheceu a importância da contribuição da etnia cigana no processo de formação da história e da identidade cultural brasileira.

Para comemorar a data, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), da Presidência da República, desenvolveu uma programação especial na manhã de hoje, com a presença de dezenas de ciganos de todo o país e de várias autoridades. Fizeram parte da mesa a ministra Matilde Ribeiro, da Seppir; o secretário Sérgio Mamberti, da SID/MinC; o secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate à Discriminação, Ivair Augusto; o presidente dos Correios, Carlos Henrique Custódio; e Cláudio Iovanovitchi, representante da etnia cigana.

Representando o ministro Gilberto Gil, o secretário Mamberti anunciou que este ano será publicado o Edital do 1º Prêmio Culturas Ciganas, no valor total de R$ 200 mil, sendo que para cada uma das 20 iniciativas culturais vencedoras serão repassados R$ 10 mil. Ainda em 2007 será firmado um Protocolo de Cooperação Técnica entre o Ministério da Cultura, por meio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e os ministérios da Saúde e da Educação, para a realização de um diagnóstico sociocultural, incluindo os saberes, os fazeres e os modos de vida dos povos ciganos.

Durante a solenidade, o presidente dos Correios, Carlos Henrique Custódio, lançou o selo personalizado e o carimbo comemorativo ao Dia Nacional do Cigano. Segundo ele, os valores ciganos são admiráveis.

A Seppir, responsável pela realização do evento, contou com o apoio e a parceria de todos os órgãos envolvidos no Grupo de Trabalho Interministerial Cigano (GTI), que funciona sob a sua coordenação: ministérios da Cultura; Saúde; Educação; Cidades; Previdência; Trabalho e Emprego; Desenvolvimento Social; e Secretaria Especial dos Direitos Humanos.

De 21 a 23 de maio, o Ministério da Cultura, por meio da SID, realizou, em Brasília, a Oficina de Capacitação em Projetos Socioculturais para Comunidades Ciganas, que fez parte da programação geral elaborada pelo governo para as comemorações do Dia Nacional do Cigano.

(Gláucia Ribeiro Lira)
(Comunicação Social do MinC)
(Foto cap: Marcelo Casal Jr./ABr) 








A Conferência atendeu suas expectativas em relação às discussões
sobre a população cigana?

Como cigana eu vim a essa conferência achando que mais uma vez meu povo não teria voz, mas eu achei que foi bem fértil. Estou representando 600 mil ciganos e metade deles são nômades e a minha preocupação é que não temos cidadania reconhecida. Estamos cansados de ser tratados como outros. Temos que acabar com essa ignorância e indiferença em relação aos ciganos. Exigimos que a nossa cultura seja respeitada e resgatada. Um fato que poucas pessoas tem acesso é de que nos tivemos um presidente cigano, que foi o Juscelino Kubitschek e ninguém sabe disso.








No que os resultados da conferência podem contribuir para mudar a
atual situação do seu grupo?


A conferência vai ajudar e muito, pois nós não queremos só terras, nós queremos acabar com esse estereotipo de que somos um povo misterioso, que temos maus costumes, pois isso não é verdade. As nossas danças e festas são muito bonitas, nós temos uma história que não foi contada. Ninguém sabe que na época da escravidão, os ciganos lutavam lado a lado com os negros, e que eles permitiam que os ciganos fizessem parte das comunidades quilombolas. São coisas que as pessoas, infelizmente, desconhecem.    23.05.07Dia Nacional do CiganoSecretário da Identidade e da Diversidade Cultural do MinC anunciará ações para as comunidades ciganas  Nesta quinta-feira, 24 de maio, comemora-se o Dia Nacional do Cigano, que será celebrado pela primeira vez na história do país. A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), da Presidência da República, elaborou uma programação especial, que será desenvolvida a partir das 10h, no Salão Negro do Palácio da Justiça, em Brasília (Esplanada dos Ministérios, Bloco T). A solenidade contará com a presença de 81 ciganos de todos os estados brasileiros, de autoridades do Governo Federal e de representantes de várias entidades.

O Ministério da Cultura terá uma participação expressiva na cerimônia. O secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do MinC, Sérgio Mamberti, fará o anúncio de várias ações em prol desse segmento da população, como, por exemplo, do 1º Prêmio Culturas Ciganas, no valor total de R$ 200 mil, cujo edital será publicado pelo ministério ainda este ano. Outro destaque será o lançamento e a entrega do Relatório do Grupo de Trabalho para as Culturas Ciganas (GT), que é coordenado pela Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural (SID/MinC) desde sua criação, em janeiro de 2006.

O lançamento do carimbo e do selo cigano, por parte das Empresas Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), e o anúncio da Cartilha de Direitos da Etnia Cigana, por meio da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, também fazem parte da programação desta quinta-feira.

Vários acontecimentos estão programados para a solenidade. A Seppir, responsável pela realização do evento, conta com o apoio e a parceria de todos os órgãos envolvidos no Grupo de Trabalho Interministerial Cigano (GTI), que funciona sob a sua coordenação: ministérios da Cultura; Saúde; Educação; Cidades; Previdência; Trabalho e Emprego; Desenvolvimento Social; e Secretaria Especial dos Direitos Humanos.







Histórico

O Dia Nacional do Cigano foi instituído em 25 de maio de 2006 por meio de decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, ao assinar o ato, reconheceu a importância da contribuição da etnia cigana no processo de formação da história e da identidade cultural brasileira. A data de 24 de maio é muito importante no calendário cigano: é o dia dedicado à Santa Sara Kali, a padroeira universal dos povos ciganos. No Rio de Janeiro, por exemplo, no Parque Garota de Ipanema, no Arpoador, já é tradicional a festa organizada pela coordenadora da Fundação Santa Sara Kali, a cigana Mirian Stanescon.


Oficina de Capacitação para ciganosAs atividades preparadas pelo Governo Federal para o Dia Nacional do Cigano começaram no dia 21 de maio, quando teve início, em Brasília, a Oficina de Capacitação em Projetos Socioculturais para Comunidades Ciganas, promovida pela SID/MinC. O evento será realizado durante três dias (21 a 23), período em que os participantes aprenderão, na prática, o que é um projeto; o que devem fazer para elaborar um trabalho como esse, de forma participativa; como escrevê-lo e uma série de outras aprendizagens. Vários são os objetivos da oficina, como possibilitar o exercício de acesso à Internet; estimular o registro e outras formas de fortalecimento das expressões da cultura material e imaterial das etnias ciganas brasileiras e outros.

Na cerimônia de abertura da oficina, realizada no Museu da República, fizeram parte da mesa o secretário (substituto) da SID, Ricardo Lima; a secretária-adjunta da Seppir, Maria do Carmo Ferreira; o coordenador do Ministério da Saúde, José Ivo Pedrosa; a representante do INSS, Renata Silva Melo; e Márcia Yáskara Guelpa, da Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci-PR) e Centro de Estudos e Resgate da Cultura Cigana (Cerci), representando, na solenidade, todos os ciganos.

Emocionada, Yáskara chorou. E falou das razões de suas lágrimas: “Esperei muito tempo por isso. O Dia do Cigano, finalmente, chegou. Agora, sim, eu acredito. Chegou a nossa vez. Realmente, as políticas públicas estão sendo construídas para os ciganos.”

Tudo começou em 2003, quando o presidente Lula recomendou ações transversais para a etnia cigana. Foi criado, então, o GTI, sob a coordenação da Seppir, e desse grupo faz parte a SID/MinC. Em janeiro de 2006, por meio de Portaria Ministerial, foi criado o Grupo de Trabalho para as Culturas Ciganas (GT), coordenado pela SID. Sua finalidade é indicar políticas públicas para as expressões culturais dos povos ciganos.

(Gláucia Ribeiro Lira)
(Comunicação/SID)
(Foto capa: Baralho Cigano/Reprodução)    







Enfermeiras ensinam hábitos saudáveis a ciganas
Ana Rute Silva


Amila tem cabelos longos e é uma mulher cigana bonita e cheia de vida. Ao ouvir a primeira pergunta da enfermeira Susana Santos, do Centro de Saúde do Seixal, responde rapidamente, como se o tempo não chegasse para mostrar tudo o que sabe.

"O leite materno é bom porque os nossos filhos não apanham doenças. Para além disso, previne os problemas gástricos", diz, com visível orgulho. Durante todo o mês de Abril, e sempre às quintas-feiras, as famílias de etnia cigana do bairro social da Quinta da Cucena, Aldeia de Paio Pires, vão ter aulas especiais no Centro Comunitário, gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Seixal. Os parceiros do projecto "Seixal Saudável" decidiram comemorar o Dia Mundial da Saúde com várias actividades, incluindo as sessões onde Camila e outras 10 mulheres ciganas aprendem mais sobre alimentação, higiene oral, corporal e habitacional (sobre mais hábitos de saúde da comunidade cigana, ver página 19).

"Para a mãe também ajuda amamentar o bebé, apesar de ser cansativo", desabafa Dina, mãe de um bebé de ano e meio. Susana Santos tenta convencer as mulheres de que o leite materno é o melhor alimento para os primeiros meses de vida. "O meu filho com dois meses já comia sopa", confessa Carla, uma cigana alegre e muito interventiva.

Sem censuras, Susana Santos continua a aula e vai dizendo que, antes de um ano de idade, não se pode dar carne. Carla interrompe e conta que, desde cedo, dava "Danoninhos" aos filhos. "Isso nem sequer é um iogurte, é uma sobremesa. Não se deve dar iogurte natural antes dos seis meses", responde a enfermeira. Acções tão simples como dar água têm de ser feitas com responsabilidade. E a compra do leite especial para bebés é prioritária "Nunca dêem leite de vaca antes de um ano", avisa. As mulheres reclamam. "Mas o outro é caro. São 20 euros cada lata! O centro de saúde devia dar", dizem, quase em coro.

Cláudia Guerreiro, enfermeira do mesmo Centro de Saúde, começa por explicar a Roda dos Alimentos. "Já repararam que a água também cá está?", pergunta. Uma das mulheres diz imediatamente que não bebe água. E a parceira do lado aconselha-a a comer "qualquer coisa salgada". A enfermeira avisa "Não! Se faz isso, faz retenção de líquidos!".

 

 

Aulas até ao fim do mês

Na primeira aula sobre alimentação, as dez alunas levaram para casa um cartaz com uma fotografia da Roda dos Alimentos para pendurar na cozinha. Na próxima quinta-feira, as enfermeiras Susana Santos e Cláudia Guerreiro, que pertencem ao Programa Saúde Infantil, vão falar sobre a vigilância em saúde. Até ao fim do mês haverá aulas sobre higiene oral, corporal e habitacional. Segundo dados não oficiais, moram cerca de 180 famílias no Bairro da Cucena, na Aldeia de Pires. O único equipamento social foi inaugurado em Junho e é gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Seixal, que organiza as aulas em parceria com o Centro de Saúde do Seixal. Cerca de dez técnicos dividem-se no apoio a crianças desde os 3 aos 10 anos, na animação para jovens e no atendimento social.
     






Famílias ciganas exigem casas para abandonar acampamento ilegal
 

"Se o maquinista não tivesse trancado as portas, tinha ficado sem cabeça", afirma Pedro, 31 anos, um dos moradores do acampamento cigano montado junto à linha ferroviária, em Coimbra, onde uma criança de dois anos foi mortalmente atropelada por um comboio na quinta-feira à noite.

"A revolta era tanta que não sei o que poderia ter acontecido", diz ainda ao DN o pai de três crianças e membro de uma das seis famílias ali instaladas (quatro das quais desde Janeiro), depois de se terem recusado a permanecer no Parque de Nómadas dos Campos do Bolão. "Saíram de lá porque se zangaram com quem lá está" (famílias também de etnia cigana), adianta Ana Fernandes, mulher de Pedro.

As construções onde vivem as seis famílias, junto à via férrea que liga a estação de Coimbra a Coimbra-B, debaixo de um viaduto de acesso à ponte-açude, estão a escassos metros de distância da linha e esta não tem qualquer protecção. Mas, diz ainda o casal, os comboios que ali circulam com frequência "apitam sempre". Desta vez, no entanto, isso não aconteceu, garantem, responsabilizando o maquinista pelo acidente.

A morte da criança provocou "muita revolta", mas não fará a comunidade de três dezenas de pessoas que ali vive mudar de ideias. "Só saímos daqui para uma casa", reafirmam, recusando o regresso ao Parque de Nómadas. E nem o facto de em Julho próximo este espaço ficar livre dos actuais moradores (altura em que a câmara os deverá alojar noutro tipo de habitações), os demoverá, por temerem represálias da parte das pessoas com quem se incompatibilizaram, confessam.

Depois de ter acabado com o mais antigo acampamento cigano da cidade (junto à estação de Coimbra-B), a câmara tenta, igualmente com recurso ao Parque Nómada (criado para funcionar como meio adaptação a novos tipos de vida e habitação), acabar com este. Na manhã de quinta-feira, o vereador Jorge Gouveia Monteiro, da Acção Social e Promoção da Habitação, deslocou-se ali e reuniu, mais uma vez, com os moradores, mas sem chegar a um acordo.

A área ocupada pelo acam- pamento "deveria ter sido veda- da" depois de, ao longo do ano passado, terem sidotransferidas para o Parque Nómada", reconhece o autarca, lamentando, por outro lado, que a linha férrea continue a atravessar a cidade. "Ali já deveria passar, há muito tempo, o metropolitano."

A área envolvente da linha não tem qualquer vedação, mas fonte da Refer - Rede Ferroviária Nacional - assegura que a legislação não prevê essa obrigação naquele local devido às suas características urbanas e ao facto de os comboios circularem a 20 quilómetros por hora: "Estamos dentro de todos os parâmetros legais", assegurou o mesmo responsável.

A PSP identificou, entretanto, "algumas das pessoas" que, após o acidente, apedrejaram o comboio e tentaram entrar no seu interior para agredirem o maquinista. Vai agora "remeter o caso para as autoridades competentes". *Com Kátia Catulo   







Gabinete de Apoio às Comunidades Ciganas: Combater a exclusão
Publicado em 19-02-2007

sOs ciganos, originalmente uma população nómada, estão em Portugal há cerca de quinhentos anos. Portugueses desde há séculos, a sua relação com a sociedade maioritária central tem tido um percurso difícil, feito de incompreensões e desconfianças que é urgente ultrapassar. Nesse sentido, foi recentemente criado no ACIME o Gabinete de Apoio às Comunidades Ciganas (GACI).
Os ciganos, uma população nómada, originária do Norte da Índia, foi entrando na Europa até chegar à Península Ibérica e a Portugal nos séculos XIV e XV. Num primeiro momento bem acolhidos, à medida que os Estados se afirmam e chamam a si o controle de todos os grupos nacionais, surgiram as dificuldades, que historicamente o poder político procurou ultrapassar através da repressão.

Esta relação conflituosa, ao longo de séculos, foi gerando de um lado e do outro representações de grande desconfiança, levando à cristalização de estereótipos e ao fechamento das comunidades. Durante muito tempo, as comunidades ciganas apenas mantiveram relações com não ciganos em contextos de trocas comerciais ou de prestação de serviços, sobretudo nas zonas rurais, onde os ciganos ainda hoje trabalham em tarefas sazonais. Só recentemente houve a compreensão de que esta população era alvo de exclusão social e se entendeu ser necessário alterar as políticas e promover activamente a sua inclusão.

Quando o ACIME foi criado, tornara-se já claro que os ciganos são uma população especial, quer pelas suas características culturais, quer pela ausência de participação na sociedade maioritária. Vivem uma dupla realidade: por um lado, uma certa “invisibilidade” social no que toca à participação e, por outro, uma excessiva visibilidade negativa. Nunca houve propriamente uma política específica para as comunidades ciganas. Os ciganos podem ser uma “minoria étnica” mas, para todos os efeitos, são cidadãos portugueses de pleno direito, embora, na prática, tenham dificuldade na vivência desse estatuto de cidadania e no acesso às instituições do Estado. Este, por seu lado, tem sempre a tentação de não ter em conta particularidades culturais, numa postura que o cigano vê como uma ameaça à sua especificidade e uma tentativa de assimilação.   


Trabalhar com a comunidade cigana  Com a criação do ACIME, numa primeira abordagem traçaram-se linhas de intervenção para estudo das comunidades ciganas, procurando elencar-se as áreas mais sensíveis. Foram criados grupos de trabalho que ajudaram a encontrar possíveis soluções em vários domínios: a venda ambulante, a educação, a mediação, a habitação.
Ao mesmo tempo foram-se procurando nas comunidades ciganas os interlocutores privilegiados que, estabelecendo pontes com o ACIME, facilitariam o diálogo e a articulação com estas populações.


Por outro lado foi essencial criar redes e ir articulando com instituições que trabalham nestas áreas, bem como estabelecer parcerias com projectos transnacionais, a fim de ter conhecimento de realidades diferentes. A participação no projecto Roma Edem possibilitou, não só a troca de experiências no âmbito do emprego e da formação, como a elaboração conjunta de um “Manual de boas práticas” divulgado em vários países da Europa. A promoção social dos ciganos passa também pelo conhecimento que a sociedade maioritária tem da sua cultura.


Assim, o ACIME abriu a colecção “Olhares” que integra estudos sociológicos em torno das temáticas que envolvem as comunidades ciganas em Portugal, havendo neste momento sete títulos já publicados.    Ministério Público FederalMPF/Sousa participa do encontro do GT Interministerial para Comunidades Ciganas22/03/2006 16:51 Evento vai reunir representantes de onze ministérios. Começa hoje, 22 de março, o encontro do Grupo de Trabalho Interministerial para Comunidades Ciganas, nas cidades de Sousa e Marizópolis, no estado da Paraíba.


O evento vai até o dia 25 e conta com a participação de 11 ministérios, que vão visitar as comunidades ciganas da região. O encontro vai reunir representantes do Ministério da Cultura, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, do Ministério da Previdência Social e do Ministério da Educação . O Ministério Público Federal em Sousa acompanha o evento. 

O procurador da República em Sousa, Victor Carvalho Veggi, já propôs um Procedimento Administrativo para tentar melhorar as condições atuais da comunidade cigana que se encontra desamparada no sertão da Paraíba, principalmente no município de Sousa. A idéia é proteger essa minoria e preservar o patrimônio público.

Vários setores da sociedade se mobilizaram para a realização do encontro do GT, que tem como objetivo fortalecer o diálogo entre as lideranças ciganas e os gestores públicos locais. O evento também vai promover produção de conhecimento sobre as comunidades ciganas, modo de vida e necessidades dessas pessoas. Outra meta é incluir informações sobre essa comunidades no banco de dados e memória da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).

Em Sousa há três comunidades ciganas da etnia Calon. São apenas 125 casas para um total de 300 famílias. Já em Marizópolis, a 30 Km de Sousa, existe uma comunidade com 100 famílias. Todas essas comunidades ciganas estão abandonadas e sofrem com a ausência de apoio governamental. 

 
Assessoria de Comunicação
Procuradoria da República na Paraíba
Fone:(83)3241-7094/ramal 237        







"Ciga-nos!" foi criado para promover inclusão e acabar com preconceitos 

O primeiro site sobre as comunidades ciganas em Portugal, "Ciga-nos!", foi hoje lançado para estimular a inclusão social e sensibilizar a opinião pública com informação e divulgação dos projectos que envolvem esta minoria étnica.

O Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) lançou hoje, no Centro Nacional de Apoio ao Imigrante, em Lisboa, o site "Ciga-nos!", que no âmbito das actividades do Gabinete de Apoio às Comunidades Ciganas (GACI), pretende fomentar dinâmicas de inclusão que abram espaço à inserção social e à valorização do património cultural desta comunidade, reforçando o diálogo e promovendo a cidadania.

Esta iniciativa surge um dia depois de cerca de 50 mil ciganos portugueses terem celebrado o Dia Nacional do Cigano por todo o país.

Em declarações à Agência Lusa, o Alto-Comissário para a Imigração e Diálogo Intercultural, Rui Marques, disse que o site tem três grandes objectivos, sendo o primeiro "dar a conhecer a história, a cultura e a realidade social da comunidade cigana" portuguesa para "quebrar o ciclo de preconceitos que existe na sociedade e que gera medo e desconfiança".

"O segundo objectivo é ter uma plataforma de comunicação interactiva para que líderes associativos das comunidades ciganas, representantes e técnicos de instituições que trabalham com estas comunidades, tenham um local onde possam obter informação prática e aprofundada", explicou o Alto-comissário.

O terceiro grande objectivo é, segundo o responsável, que as crianças ciganas que frequentam o "Programa Escolhas" - que decorre até 2009 e tem como metas principais a promoção da inclusão social de crianças e jovens em contextos socio-económicos mais vulneráveis - e que tem acesso à Internet através dos Centros de Inclusão Digital "possam encontrar a sua realidade quando fazem as suas pesquisas".

O site Dispõe ainda de um fórum aberto à participação de todos os interessados na problemática cigana, a fim de gerar o debate em torno das áreas mais sensíveis (educação, habitação, empregabilidade, saúde) e ambicionando estabelecer um processo de interacção entre os vários actores, por forma a dinamizar a procura de soluções para a integração das comunidades cigana.
      










VIDA CIGANA – As mulheres: universo patriarcal revela suas guerreiras

1. MIRIAN

A fluminense Mirian Stanescon Batuli fala muitas coisas ao mesmo tempo. Sem papas na língua. Critica os gadjes, mas também os próprios ciganos. Vaidosa, veste-se como uma rainha – rainha Kalderash, ramo dos Rom que tradicionalmente se proclama nobre. "Os Kalderash são os mais tradicionais", orgulha-se. Adota um estilo imponente e controverso.

- Prefiro que digam que sou antipática, se com a antipatia conquistar mais coisas para meu povo do que com a simpatia.

Ela nasceu em família rica, em Nova Iguaçu, onde vive. "Hoje meu pai é nome de rua." O nome Stanescon vem da Romênia – e da atividade da família com estanho. Mirian enfrentou preconceito na escola e entre os próprios ciganos era chamada de "doutorinha". Formou-se advogada e hoje toca a Fundação Santa Sara Kalí, onde promove cruzadas pela paz e sonha com o ensino de romanês, um banco de dados da cultura cigana, inclusão digital e mais um arsenal de ações pela cidadania de sua gente.

Liderança reconhecida, diz que foi brigando pelos direitos de seu povo "no braço, impondo". Emplacou propostas na 9° Conferência Nacional de Direitos Humanos e em outros fóruns – e logo fez parceria com as "irmãs negras", historicamente mais organizadas.

- Sempre lutei pela dignidade e igualdade de todos. Quando mataram o índio Galdino, mudei minha proposta para incluir índios, negros e judeus. Não é só cigano que é ultrajado.

Os princípios morais, afirma, aprendeu no acampamento. "O que é bom dos ciganos quero levar para os gadje. O que é bom deles trago para a minha comunidade. E, em primeiro lugar, o que temos de bom é o amor à família."

A "rainha" Kalderash casou-se virgem aos 32 anos e conta que só teve seu marido, já falecido, como parceiro. "Meus valores não são os dos outros", sustenta. "São esses."

Mirian conta que era dela a santa exibida na novela "Explode, Coração", de Glória Perez, segundo ela baseada em um de seus livros.

- Emprestei a santa à Glória. Depois brigamos, pois estavam contando coisas que não eram verdadeiras. Na hora em que vi que a novela desrespeitava o meu povo, entrei com liminar. Disse para ela que aquela não era a minha história. Rompi.

A cigana Rom defende o voto do povo cigano no presidente Luiz Inácio Lula da Silva – subordinação contestada por outros líderes. "Pelo menos ele deu o pontapé inicial. Vou votar no Lula. Ele olhou para o meu povo, e cigano que não fizer isso é ingrato." Ela tem um retrato autografado com Juscelino Kubitschek, descendente de ciganos, mas não o cederia para a Globo. "Ele foi à minha casa e tomou todas, está lá para quem quiser fazer um exame grafotécnico."

Miram diz que teve sorte de ser acolhida pelo povo de Nova Iguaçu. "Jamais vou ser Madame Vieira Souto, Madame Zona Sul. Sou Nova Iguaçu, o que aprendi foi na Baixada." E quer que todo cigano se sinta cidadão brasileiro.

- Como eles não lêem as barbaridades que escrevem sobre eles, que se faça algo para passar na TV - defende. - Hoje o cigano se sente estrangeiro na própria terra. Eu quero saber do cigano brasileiro, não do europeu. Os nossos projetos podem dar um exemplo para o mundo.



2. YÁSKARA

Márcia Yáskara Guelpa é anarquista, cigana e representante de minorias por definição. Comanda o braço paulista da Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci). Com sua sobrinha, Lara, encantou os participantes do Encontro de Lideranças Ciganas, em Brasília, entre eles o ator Sérgio Mamberti, com sua apresentação de danças Calon. Antes, discursou. Fez uma apresentação sobre a história dos ciganos, alternando música e dança.

Mirian não gostou. Em sua fala, criticou as "firulas" de quem faz apresentações artísticas em conferências sobre temas de interesse cigano. Depois as duas líderes, uma Rom (ramo Kalderash) e a outra Calon, acertaram-se, mas ficou um certo mal estar na sala. Os estilos de ambas convergem, no momento em que os ciganos brasileiros tentam finalmente se organizar. Márcia aposta com mais ênfase no poder da emoção.

"Ser diferente não é ser desigual, e é isso que acontece com o povo cigano do Brasil", proclama. Em sua exposição falou da matança de ciganos durante o Holocausto, "proporcionalmente maior que a dos judeus", da história da chegada dos Rom e Calon ao Brasil, "expulsos pela Inquisição, acorrentados", das discriminações durante o Império, de Juscelino Kubitschek e da não inclusão de sua condição cigana na minissérie “JK”, da Globo. "Talvez porque não fosse tão glamouroso", alfineta.

Ela diz que a ascendência de Juscelino – bisneto de Jan Nepomuscky Kubitschek - não o motivou a "levantar um dedinho para fazer políticas assertivas para os ciganos". Márcia conta que conhece algumas centenas de ciganos na situação de miséria. São em sua maioria da etnia Calon, segundo ela quase a totalidade dos "sem CEP" entre os nômades. É para eles que ela quer a efetivação de políticas públicas.



3. LARA

Lara Orlow, sobrinha de Márcia Yáskara, ganhou esse sobrenome por conta da origem eslava. Seus avós paternos, Rom, vieram para o Brasil pela Cruz Vermelha, fugindo do Holocausto. "Meu avô era Rom, mágico de circo, na divisa entre a Romênia e a Ucrânia. Ele estava na mesa de experiências quando acabou a guerra. A família toda foi morta pelos alemães."

Os pais se conheceram no Brasil - a avó materna era Calon, de origem portuguesa. A cigana Calon busca hoje resgatar a tradição que, em duas gerações, encontrava-se ameaçada. Ela ensina caló (os Rom falam romanês e os sinti, sinto) à filha, Gabriela, e mantém as tradições culturais, da dança à vestimenta. Mas trabalha com recursos humanos e está radicada em Guarulhos. Ela não se ateve, no entanto, à família imediata, e busca ajudar outros Calon – o povo mais necessitado entre os ciganos no Brasil, como diz a Rom Mirian Stanescon - na região metropolitana de São Paulo.

Lara tira hoje dinheiro do próprio bolso para levar cestas básicas a dois acampamentos em Franco da Rocha – um, pequeno, com cinco famílias; outro com 50 famílias. As condições de saneamento no local são muito ruins. Pela falta de controle de natalidade, a dor está presente em cada entrega de criança a alguém que tenha melhor condição financeira. "Vi sempre muita pobreza. Cresci vendo eles sofrerem ameaça", conta, ao justificar a opção por ajudar seus pares.

Ela se apresentou com a tia no Encontro de Lideranças Ciganas, com uma dança - sua atividade preferida - tipicamente sensual. Voltou com uma boa notícia. Foi procurada por alguém do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que acenou com a possibilidade de inclusão dos ciganos no Bolsa-Família. Lara não tem compromisso com governo ou partidos, mas para ela "família" também é uma palavra-chave.



4. TATIANE

Tatiane Iovanovitchi possui uma trajetória privilegiada entre os ciganos. Economicamente, como Rom, não passou pela miséria vivida por boa parte dos Calon. Politicamente, é filha de um dos principais líderes no Brasil, o paranaense Cláudio. Teve oportunidade de estudar – é formada em Marketing e faz um curso técnico em Cinema – e quer agora levar sua cultura adiante.

Morena, dotada de uma beleza que faz o pai brincar ("Veja o que é a natureza..."), Tatiane chegou a casar com um cigano, não deu certo. Mas é com uma história romântica que ela quer emplacar um sucesso nas telas. "Traio Romanô – Uma Saga Cigana" tem roteiro de Edson Bueno, um paranaense com dois Kikito no Festival de Gramado. São duas produtoras, a Máquina, habilitada para captar recursos, e a Traio, dela mesma.

A estréia está prevista para dezembro. O filme inspirador é Dois Filhos de Francisco. O proselitismo não é explícito. "Se fizermos um filme sobre a miséria e analfabetismo dos ciganos", brinca o pai de Tatiane, Cláudio. As informações sobre a vida cigana (traio romano) serão diluídas no filme, em meio à história amorosa.

Por definição, se tratará de um road movie.

Alceu Luís Castilho










VIDA CIGANA – Brasil, 2006: na encruzilhada, ciganos desafiam invisibilidade e buscam cidadania


BRASÍLIA - Em Aracaju, ciganos vivem em um antigo galinheiro. Em Goiás, diversas prefeituras proíbem os nômades de erguer suas barracas. Em todo o Brasil, membros da etnia Calon, a mais pobre, vivem em condições precárias de saneamento e saúde. Pela tradição de invisibilidade, boa parte se recusa a tirar carteira de identidade ou receber técnicos do IBGE. Em meio à discriminação de séculos de história, lideranças ciganas de vários Estados brasileiros estão se articulando, neste início de milênio, para levar finalmente cidadania a seu povo.

O relato de ciganos vivendo em um galinheiro, nos arredores de Aracaju, foi feito à reportagem na terça-feira, dia 21, pelo antropólogo Frans Moonen, professor aposentado da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). É dele a posição de que não há estatística segura sobre o número de ciganos no Brasil. Uma pesquisadora falou uma vez que são 150 mil, e em outras ocasiões 300 mil, 600 mil e 800 mil. O fato é que eles são muitos, e com problemas decorrentes da natalidade:

- As famílias que vivem em acampamentos não possuem informações sobre controle de natalidade e uso de contraceptivos – descreve a paulista Lara Orlow, Calon de Guarulhos que freqüenta acampamentos pobres em Franco da Rocha. - Geram muitos filhos, e na maioria dos casos, entregam as crianças ainda recém-nascidas a outros ciganos com melhores condições de vida ou ainda os dão por adoção a gadjes (não ciganos), perdendo suas raízes, costumes e histórico cultural.

Os ciganos têm agrupamentos significativos em municípios como Campinas (calcula-se que haja 400 famílias), Curitiba, Aracaju e Nova Iguaçu, entre outros. Apesar da diferença, ou mesmo rivalidade entre etnias como Rom (subdividida por sua vez em vários grupos), Calon e Cindi, há convergência no culto à família e, hoje, um início de aproximação visando a conquista de direitos para todos. O evento do dia 21, com lideranças ciganas no Palácio do Planalto, pode ser considerado um marco nesse sentido.

A ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, não compareceu ao evento promovido por sua pasta. Por conta do lançamento do GT Cultural Cigano, porém, o ator Sérgio Mamberti, secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, prestigiou os ciganos e acenou com a possibilidade de um edital específico para projetos por eles apresentados, a exemplo do que já está sendo feito com comunidades indígenas.

As reivindicações dos Calon e Rom presentes ao evento, convergiram em sua maioria. Os ciganos querem mais visibilidade, reconhecimento e condições de saneamento, educação e saúde nos acampamentos. Querem acesso à cultura, e verbas pelos programas de incentivos governamentais para “contar a própria história”.

E esta é uma história de discriminações.

- Eles chegaram ao Brasil acorrentados, no século 19 – conta a tia de Lara Orlow, a paulista Márcia Yáskara Guelpa, da Associação de Preservação da Cultura Cigana (Apreci) – Os negros viviam em situação melhor, pois recebiam comida. Os ciganos viviam nos arredores, e quando entravam na cidade não podiam nem pisar na calçada.

Mesmo hoje não é difícil ver alguém atravessar a calçada, nas grandes cidades do Brasil ou da Europa, quando aparece um cigano. Eles são estigmatizados como ladrões, ou vagabundos – antigamente, até como “raptores de criancinhas”, como conta o paranaense Cláudio Iovanovitchi, do Conselho de Promoção da Igualdade Racial.

- Essa de raptar crianças quem criou foi o Miguel de Cervantes, em um de seus contos – afirma Iovanovitchi. No Brasil, estamos com uma legislação que é uma criança de 2 anos. (Os ciganos foram incluídos no Programa Nacional de Direitos Humanos II, durante o governo FHC.) E na hora em que conseguirem dividir a voz dos excluídos, os primeiros a dançar serão os ciganos.

Em Franco da Rocha, Carlos Calon, um funcionário da prefeitura, cavou uma trincheira em defesa dos que moram em acampamentos na região:

- Não são expulsos porque eu brigo por isso. Falo: então eu vou embora. Se eu não sou bem-vindo, então vou embora. Cigano é um pelo outro.

O goiano Jesus, um Calon que se orgulha da filha ter passado num concurso público para professora, conta que está difícil montar um acampamento em seu Estado, pois várias prefeituras têm promulgado leis proibindo as barracas. “Não há nada que possam fazer por isso?”, pergunta.

Segundo Iovanovitchi, os ladrões locais, nesses municípios pequenos, desenvolveram o costume de promover ondas de furto no período em que os ciganos lá estão. Acusados, os ciganos vão parar na polícia. Sem RG, sem endereço, sem testemunhas a favor, acabam sendo pressionados a deixar o local. E o círculo vicioso se perpetua.

Esse círculo é tão amplo que a discriminação atravessa as classes sociais. A coordenadora da Fundação Santa Sara Kali, Mirian Stanescon Batuli, uma orgulhosa e bem vestida Kalderash (ramo dos Rom que, segundo o antropólogo Doonen, proclama-se autêntico e nobre), “filha de cigano rico”, diz que o preconceito começa na infância:

- Se sumia uma caneta na sala, a primeira pasta revistada era a minha. Até chegar na faculdade foi assim.

Ela conta que quando estudou advocacia, há 33 anos, o preconceito vinha dos próprios ciganos:

- Eu era alvo de chacota nas festas ciganas. “Lá vem a doutorinha”, diziam.

Sobre a possibilidade de cotas para ciganos nas universidades, Mirian defende posição polêmica:

- Se 99% do meu povo é analfabeto, vou lutar por faculdade? Quero uma unidade médica onde tenha uma mulher para tocar nas ciganas. Elas não vão porque os maridos não as deixam serem tocadas por um homem. É mais fácil colocar uma ginecologista do que mudar uma cultura - raciocina.

E, dirigindo-se aos gadjes, fulmina:

- Do mesmo jeito que vocês têm medo da gente, nós temos medo de vocês.

 

   
 

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